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quarta-feira, 26 de dezembro de 2012

“EU ERREI” E OUTRAS COISAS QUE NUNCA DISSE ANTES

“Tudo que sei é que nada sei”. Essas palavras nunca fizeram tanto sentido quanto agora.
            Sempre me juguei uma pessoa esperta, intuitiva, que conseguia decifrar a personalidade de alguém sem precisar fazer muito esforço. Como eu estava enganado. As experiências pelas quais passei nas últimas semanas me provaram quão falhas são as conclusões que formamos de nós mesmos. Não me conheço e não conheço ninguém.
        Julguei pessoas sem nem ao menos conhecê-las; pensei o pior sobre tudo e sobre todos; fui preconceituoso, arrogante, dissimulado, perverso. Até aí não tem nada de novo; sempre fui assim, e sempre convivi muito bem com esses “defeitozinhos”. Por mais terrível que eu fosse, o tempo sempre (repito, sempre) mostrava que eu estava certo em meus julgamentos. As pessoas nunca se mostravam melhores do que suas caricaturas bizarras, que eu criava em minha cabeça. Mas alguma coisa mudou. Eu errei.
                Era manhã, e o sol fervia do lado de fora do prédio. Eu andava sozinho por corredores que não conhecia. Passava por portas novas e velhas, grandes e pequenas. Mas não era nos corredores que eu prestava atenção, muito menos nas portas, e sim no futuro. Não o futuro das décadas e séculos, mas o futuro dos minutos, segundos e milésimos de segundos. O futuro depois de cada passo, aquele futuro que pisa em nossa sombra e que, a pouco, chamávamos de “agora”. Esse futuro me assustava, e me roubava o ar dos pulmões. Sentia-o afiando as garras, preparando-se para me estraçalhar. É estranho dizer isso, mas, naquele momento, senti uma forte ligação com a Maria Antonieta. Acho que tem alguma coisa a ver com guilhotinas, sei lá...




                Onde eu quero chegar é, “cheguei”. As pessoas que eu menos queria ver no mundo estavam lá, enfileiradas de ambos os lados do corredor. Parei, respirei fundo, e segui em frente. Eu não sentia meus pés tocando o chão, nem as pernas me carregando. Meu corpo sumiu, e tudo que restou dele foi um coração que batia descontrolado, querendo fugir daqueles olhares curiosos. Passei entre “os estranhos”, desejando com toda a força que todos eles morressem. Encostei-me na parede, olhei para o chão, e para o chão continuei olhando por um tempo indeterminado (sem tirar da cabeça o desejo de que alguma catástrofe acabace com a vida de todos os presentes).
                É neste momento em que separamos as histórias boas das ruins. Nas histórias ruins, você acaba adivinhando o final; nas boas, tem a tal da “reviravolta”, o imprevisível. Posso dizer que minha história acabou virando uma “boa história”, contrariando todas as minhas expectativas. Na minha cabeça, eu já havia escrito e reescrito esta narrativa diversas vezes, e o final era sempre o mesmo: eu sozinho num canto da sala, calado, solitário, desejando que o dia acabasse logo para que eu pudesse ir para casa, mas no dia seguinte eu voltaria, e começaria tudo de novo... mas como eu disse, esta é uma boa história, e nas boas histórias não conseguimos adivinhar o final.
Tudo o que eu posso (e consigo) dizer é que não fui ignorado. Alguém se aproximou de mim, e me estendeu a mão. Esta pessoa não sabe, mas livrou-me de uma solidão que já estava etiquetada com meu nome. Ela me abriu os olhos, e só então eu pude olhar em volta e perceber que não estou sozinho, que as pessoas também têm bondade dentro de si e que o tempo não é tão assustador quanto eu pensava. Ainda quero que algumas pessoas morram, mas agora já posso dizer que meu “ódio infundado” não é tão infundado assim.
Você não sabe o quão difícil foi escrever este texto, pois admitir meus erros é uma verdadeira tortura, mas eu precisava colocar isso pra fora, e, acima de tudo, agradecer, e agora falo diretamente à pessoa que me ajudou: você provavelmente nunca vai ler este texto, sequer vai tomar conhecimento dos meus sentimentos, mas, mesmo assim, quero lhe agradecer. Você pode não saber, mas seu gesto me impediu de mergulhar numa “história ruim”. Obrigado.

4 comentários:

Marília disse...

Nem tudo é o que parece, afinal.

Claudio Chamun disse...

Meu, no começo achei que era verdade, depois apenas um texto, no fim acho que é fato mesmo.
Que loucura.
Show!
PS: Não tem o nome do cara?
Abraço.
www.cchamun.blogspot.com.br
Histórias, estórias e outras polêmicas

Pedro Lourenço disse...

Esse cara sou eu.

Kelly Leopoldina disse...

Excelente mesmo!