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quinta-feira, 29 de novembro de 2012

O MENINO QUE NÃO SABIA CHORAR




                    Anônimo nasceu numa tarde nublada de Junho. Depois de muitas horas de trabalho de parto, Anônimo veio ao mundo, mas, ao contrário dos bebês normais, ele não chorou. Hoje se sabe que Anônimo não era um bebê normal. Nunca foi. Não importava se era dia ou noite, se estava quente ou frio, se tinha fome ou outras dessas coisas de bebês, ele nunca chorava. A mãe dele, Sra. Alguém, as vezes ia ao seu quarto de madrugada, e encontrava-o acordado, olhando fixo para o teto, como se estivesse dormindo de olhos abertos.
                    Ele também demorou mais para aprender a falar do que as outras crianças. Sua primeira palavra foi “não”. Mesmo depois de começar a falar, ele não se comunicava muito. Não falava nada além do necessário. Anônimo cresceu solitário, sem amigos. Ele simplesmente não entendia as outras crianças. Por que elas corriam e gritavam tanto? Por que arreganhavam a boca e mostravam os dentes para mostrar que estavam felizes? Nada fazia sentido para Anônimo.
                    Ele, quando pequeno, gostava de desenhar árvores e relógios. Cresceu, e trocou os lápis de cor por bonecos dos Power Rangers. Com o tempo, também abandonou os brinquedos, substituindo-os por livros. Anônimo gostava de ler. Ele sentia como se estivesse vivendo uma vida que não era a sua. Uma vida de pessoas que sentem e choram. Mas ele não gostava dos finais dos livros, pois as vidas que ele vivia deixavam de existir, obrigando-o a voltar para a realidade, onde ele nada sentia. Anônimo achava que a morte devia ser parecida com o final de um livro.
                    Anônimo sabia que não era normal, e seus pais também. Mandaram-no para diversos psicólogos e psiquiatras, mas nada mudou. Terapias, hipnose, medicamentos; nada fazia efeito. Ele não sentia absolutamente nada, como se fosse um objeto inanimado, como se não existisse. Nem os gritos que a mãe dava quando apanhava do Sr. Alguém o emocionavam. Ele trancava-se no quarto e tentava chorar, ficar triste, qualquer coisa, mas não conseguia. Uma vez ou outra ele sentia que era uma pessoa ruim por não se importar com os outros. Não era culpa; estava mais para uma nota de rodapé sobre sua própria vida. Assim que os gritos acabavam, esses pensamentos iam embora, e ele voltava para os livros.
                    Um dia Anônimo encontrou um cachorro morto na rua. Ele observou-o rapidamente, reparando nas marcas de pneu no corpo do animal, depois virou as costas e foi para casa. Não foi muito diferente quando ele recebeu a notícia da morte do pai. Observou-o rapidamente estirado no caixão, com os algodões enfiados no nariz, depois virou as costas e foi para casa. Não é preciso dizer que ele não derramou uma lágrima, não é? A Sra. Alguém tentou se matar, tomando todos os remédios que encontrou pela casa. Não conseguiu. Uma vizinha encontrou-a desmaiada e socorreu-a. Anônimo visitou a mãe algumas vezes no hospital, mas não prestou atenção nas palavras dela. Tudo o que ele queria era sair daquele lugar e trancar-se em seu quarto.
                    Um dia, já de madrugada, ele terminou de ler mais um de seus livros. As Aventuras de Pinóquio. Ao contrário das outras vezes, não foi tomado pela sensação de vazio que sucedia os finais dos livros. Alguma coisa naquela história havia despertado algo novo dentro dele. Algo humano. Naquela noite, ele sonhou com a fada azul, e chorou enquanto dormia. No outro dia, ele não se lembrava mais do sonho, e as lágrimas em seu rosto já haviam secado. Anônimo se lembrou do cachorro atropelado que encontrou outro dia, e sentiu-se triste. Ele sentiu algo pela primeira vez na vida, como um menino de verdade.

5 comentários:

Marijleite disse...

Que lindo esse texto! Acho que o Anônimo não era tão sem sentimentos assim, já que viajava através dos livros, talvez ele apenas ainda não tivesse se descoberto.
petalasdeliberdade.blogspot.com

Marijleite disse...

Ah, esqueci de dizer que seu blog está lindo, o layout e a escolha das cores.

Claudio Chamun disse...

Pedro Lourenço arrasando como sempre!

www.cchamun.blogspot.com.br
Histórias, estórias e outras polêmicas

Wíllivan Carsan disse...

Realmente...seu blog esta linda.. Perfeitamente feito... E esse texto... Humm..Quando olhei...vi um monte de palavras...eu preguiça...Foi só levantar..conversar um pouco e voltar... Li, com uma sede...em apenas um gole.. #PERFEITO


http://escritordebrinquedo.blogspot.com.br/

Numak Rorge disse...

Gostei muito das tuas histórias. Descreve bem os ambientes. Dá riqueza ao cenário.
Parabéns!

Meu blog é novo. É de contos eróticos.
Visite sem compromisso.

www.contoseroticosnr.blogspot.com.br